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A FOME AVASSALADORA QUE BATE, TODO DIA, NO FIM DA TARDE.

A FOME AVASSALADORA QUE BATE, TODO DIA, NO FIM DA TARDE.

Esse desejo irresistível de comer causa furos irreparáveis à dieta.

Não era, evidentemente, nenhum chá das 5 inglês, farto em sabores delicados de bolos, doces e biscoitos, servido em finíssima porcelana. Mas desde a sua infância, quando toda tarde tinha garantidos o seu pão de açúcar com Q-Suco, Jeffinho se acostumou ao lanche da tarde. Tornou-se um hábito, arraigado de tal forma que até hoje não consegue passar sem morder alguma coisinha (alguma coisinha é um eufemismo cínico).

Mesmo respeitando o intervalo de três horas entre as refeições, como recomendam os nutricionistas, ao cair da tarde é quando a fome aperta, intensamente – mais até do que na hora do almoço, quando em geral se come em maior quantidade, contrariando os nutricionistas. Lá pelas 4, 5 da tarde, o bicho pega pra valer!

Pior é que nessa hora o cardápio disponível é calórico e perigoso, provoca o gordo guloso, ativa ainda mais o apetite vespertino. É difícil resistir e muito fácil ceder às variadas tentações que se oferecem ao mesmo tempo, como se fosse um complô bem articulado contra todos os obesos.

Até parece sacanagem, mas geralmente é sempre alimento que gordo adora, a começar por aquele pão francês quentinho, crocante, recém-chegado da padaria, atolado de manteiga (se tiver um salaminho italiano para rechear, melhor ainda). Para lavar as papilas, Coca Cola gelada ou uma xícara de café quente com leite e uma pitada de achocolatado.

Ainda quando se está em casa, raramente se resiste àquela pipoquinha amanteigada, quentinha, na hora da sessão da tarde na TV. Às vezes, também rola uma pizza pronta, que pizza é merenda, não é refeição.

No trabalho, tem a moça do lanche que sempre chega nessa hora, com sua cestinha provocadora, cheia de doces e salgados, entre coxinhas, quibes e pasteis. Na volta para casa, também no fim da tarde, tem que respeitar a tradição: parar na baiana da esquina e comer um acarajé, ou dois, com Coca Cola ou cerveja.

Jeffinho sabe muito bem que seus nutricionistas estão cansados de falar e prescrever cardápios perfeitos para o lanche da tarde, variando apetitosamente (lá para eles!) entre uma solitária castanha do Pará, ou uma porção de fruta, ou um quadradinho de chocolate, ou outra opção qualquer de igual poder de atração e saciedade. Convém notar que nutricionista nunca é agregador, é sempre excludente; é uma comida ou outra, nunca uma e outra ou mais.

Talvez essa repressão toda seja a causa – ou uma delas – para essa fome avassaladora, incontrolável (o que é proibido é desejado), que bate inexplicavelmente com tamanha força, todo fim de tarde, de tal forma que deixa o gordinho quase louco.

Não há outro horário em que isso aconteça tão intensamente, nem mesmo durante os assaltos noturnos à geladeira – mal do qual Jeffinho, ainda bem, não padece.

Sobre Otto Freitas

Otto Freitas (otto.freitas@terra.com.br) é jornalista, formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Tem larga experiência na imprensa baiana, incluindo jornais diários, revistas e emissoras de TV. Atua atualmente na área de comunicação corporativa e jornalismo digital. Esta coluna é publicada também pelo site de notícias Bahia Já (bahiaja.com.br).