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Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu ou é gordo.

Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu ou é gordo.

Depois de tentativas frustradas, por anos consecutivos, Jeffinho tomou consciência de que, definitivamente, Carnaval não é festa para quem está acima do peso, tudo conspira contra o gordo. Isso apesar da contradição contida no fato de que o soberano desse evento profano seja um obeso fanfarão tirado a monarca da alegria.

Ao contrario da maioria dos súditos, que passam o ano inteiro malhando e comendo folha para entrar em forma e agüentar o tranco, o candidato à Coroa faz de tudo para ficar ainda maior e mais pesado, só para ser rei por uns poucos dias. Mas alguém já viu o rei Momo pulando atrás do trio, naquela muvuca doida?

Jeffinho, que está vivão da silva, garante que “atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, ou é gordo. Carnavalesco desde menino, confessa que não aguenta ir atrás do trio. Com seu fôlego de atleta asmático, jamais conseguiria ficar muito tempo pulando agarradinho, no ritmo da multidão, com aquele monte de banha sacudindo, pra cima e pra baixo, em absoluto sincronismo de todas as dobras adiposas.

Gordo não pode sequer subir no trio como convidado, caso seja uma celebridade, um parente de artista ou de patrocinador. É que, apesar de tamanha importância, o obeso não passa pelas escadas e elevadores de acesso, tudo apertadinho. Caso fosse erguido por um guindaste, também não caberia naqueles espaços exclusivíssimos reservados aos convidados.

Lá em cima do trio é praticamente uma torcida do Bahia por centímetro quadrado: ninguém se mexe, não dança, não tira o pé do chão, nem pode colocar mãosinhas e dedinhos pra cima, ao comando do artista. Não tem como. Levantou um pé e na volta já encontra outro no lugar – e aí tem que ficar o percurso inteiro, cerca de oito horas, pulando feito Saci, em uma perna só.

Aliás, gordo também não pode sair em bloco de Carnaval. Primeiro porque não tem abadá do seu tamanho, sobra barrigão naquele pedacinho de pano de nada. Depois porque não consegue subir no caminhão de apoio, destinado a convidados menos ilustres – e mesmo que consiga, vai ter que ficar em pé durante todo o percurso na avenida. Além do mais, para ir ao banheiro, no caminhão de apoio, é preciso vencer uma escadinha infame, passar pela portinha apertada e alcançar os mictórios, em movimentos próprios de contorcionista asiático.

Sem trio, nem bloco, a pior alternativa é virar folião pipoca – e isso não é para qualquer um, muito menos para o gordo. Trata-se de uma entidade com avançado condicionamento físico, conhecimento e experiência no Carnaval de rua. O iniciado deve ter alguma habilidade em capoeira e danças tribais; precisa saber as regras próprias de boa convivência, corpo a corpo; ser bem humorado (tomar porrada e seguir em paz, sem reagir); ter aguçado instinto de preservação e profundo altruísmo (ver o fortão passar a mão não bunda da mulher dele e fingir que não viu).

Restam, então, os camarotes, de preferência aqueles só para convidados de empresas, que fazem marketing no Carnaval. É boca livre de alto nível, enorme e aberta o tempo todo. O gordo usufrui de todos os mimos oferecidos e se lambuza nos comes e bebes. Não falta o sofazão confortável, no ar condicionado, para se afundar e relaxar. Sai de lá com a chave do rabo torta.

Nas outras modalidades de camarote, em que os ingressos cobrados são caros, é uma luta para conseguir um espaço na frente, para ver o Carnaval passar – sem contar a briga de foice que se trava, em alguns deles, nas filas dos bares e buffets, sobretudo se for all inclusive.

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É emocionante ver o trio seguindo pela avenida, com aquela multidão em volta, pulando em um movimento uniforme, cadente, no mesmo ritmo da música. Mas eles lá e você cá, ensina Jeffinho, que sabe tudo da festa e não abandona o Carnaval de jeito nenhum.

Carnavalesco doente, em todos os dias do reinado de Momo Jeffinho já amanhece com um Sonrisal no copo, para rebater a ressaca, colares dos Filhos de Gandhi no pescoço, a bandana de Bel do Chiclete com Banana na cabeça e pinturas tribais da Timbalada pelo corpo – sem camisa, descalço, vestindo um bermudão frouxo, sem cueca, que é para ficar mais à vontade.

Para ajudar a manter o clima, confetes, serpentinas e apitos, um monte de petiscos e um isopor grande, entupido de geladinhas. De vez em quando, uma tequila ouro, com sal e limão, para pegar pressão. De madrugada, antes de dormir, assiste o desfile dos afoxés e blocos afro e bate um feijão, no capricho, para dar sustança no dia seguinte, pois “Deus é menino, mas não chupa pirulito”.

E assim, “nesse tique, nesse taque, nesse toque, nesse pique…”, lá vai o gordão no seu Carnaval particular, em ritual que se repete, diariamente, até o arrastão no circuito Barra-Ondina, na manhã da Quarta-Feira de Cinzas, seguindo Brown e de olho grudadinho nas belas pernas de Ivete.

Em vez de dar a volta no trio, o bloco Os gordinhos de Jeffinho dá a volta no sofá da sala, em frente a uma enorme TV em 3D, com som amplificado bem alto. Praticamente, é o Carnaval de rua dentro de casa – muito mais seguro e descansado, pois o sofá não sai dali, por garantia.

Sobre Otto Freitas

Otto Freitas (otto.freitas@terra.com.br) é jornalista, formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Tem larga experiência na imprensa baiana, incluindo jornais diários, revistas e emissoras de TV. Atua atualmente na área de comunicação corporativa e jornalismo digital. Esta coluna é publicada também pelo site de notícias Bahia Já (bahiaja.com.br).