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DESAFIOS do gordo na Copa das Copas

DESAFIOS do gordo na Copa das Copas

Essa é mais uma triste constatação de que ninguém se lembra dos gordos, no dia-a-dia e muito menos em momentos especiais como a Copa do Mundo de Futebol. Para começo de conversa, um obeso nem consegue chegar aos estádios da Copa, agora chamados de Arena, para lhes emprestar modernidade que é falsa, pois ignoram as minorias e até mesmo os idosos.
É tudo longe demais, é preciso andar muito, entre o ponto do ônibus ou o estacionamento até a cadeira numerada. No caso aqui da Fonte Nova, se duvidar o gordo vai ter que atravessar o dique a nado – isso se conseguir autorização dos orixás de Tati Moreno e dos seres mitológicos que habitam as águas do Tororó. Também será imprescindível levar um amigo solidário para carregar banquinho e tanque de oxigênio, indispensáveis nas paradas de descanso, ao longo do percurso.
Como o gordo vai gastar um bom tempo para alcançar o seu lugar marcado, convém sair de casa mais cedo, bem mais cedo, tipo assim na véspera de cada jogo. Se não for assim, ele só vai chegar ao estádio na Copa de 2018, mas aí será tarde demais, pois os jogos vão acontecer na Russia.
Se não morrer de infarto pelo caminho e, enfim, alcançar o seu lugar na Fonte Nova, vem o segundo tempo da peleja, que é difícilima. Começa pelas cadeiras: na TV, é tudo muito bonito, as fileiras coloridas e bem alinhadas; mas quando você chega encontra aquelas coisinhas fuleiras, uma coladinha na outra. Sempre haverá mais bunda do que cadeira e o gordo terá que se espremer, com os braços cruzados sobre a barriga, para não incomodar o vizinho.
Pior é que ainda tem o senta-levanta da torcida, a cada lance perigoso. Quando o jogo acaba, o gordo está quase morto. Pelo menos, fica uns três ou quatro quilos mais magro; pode até ser mais, caso faça muitas viagens de ida-e-volta ao banheiro, incluindo-se aí uma longa e estafante escadaria.
Como disse um recepcionista a um torcedor de Manaus, na recente inauguração da Arena Amazonas, está achando ruim, vá para a área vip, inocente! Compre um camarote, porque aí você entra pela ladeira da Fonte, não passa por essa dolorosa provação e fica todo frouxo e confortável na poltrona larga e macia.
Agora, uma coisa essa Arena Fonte Nova é boa para ajudar na dieta do gordo: não há mais ambulante vendendo guloseimas na arquibancada, só tem as lanchonetes. Mas essa decisão acabou, tristemente, com aquele jeito doce, lúdico e poético das tardes de domingo, para adultos e crianças.
Jeffinho mesmo não parava a boca na velha Fonte Nova. Era amendoim, cozido e torrado; rolete de cana; salgadinhos de salsicha, cachorro quente e pastel de vento; limonada geladíssima e um picolé Capelinha para rebater. Agora não tem nada disso, é bico seco, durante todo o jogo. Querem matar Jeffinho!
Pelo menos, voltaram atrás naquela decisão ignorante, burra, de proibir os tabuleiros das baianas dentro do estádio. Ô, baiana, por favor, bote um acarajé aí bem crocante, quentinho da hora, com pimenta e camarão. Hummmm!

Sobre Otto Freitas

Otto Freitas (otto.freitas@terra.com.br) é jornalista, formado pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia. Tem larga experiência na imprensa baiana, incluindo jornais diários, revistas e emissoras de TV. Atua atualmente na área de comunicação corporativa e jornalismo digital. Esta coluna é publicada também pelo site de notícias Bahia Já (bahiaja.com.br).